Eu morri ontem
E anteontem também
De uma morte estúpida,
De uma morte crua demais.

Eu nunca pedi para estar aqui
Entre os mentirosos
Entre os maldosos
Que são engenhosos de ar sagaz,
Eu não pedi.

O diabo já não me assusta mais
eu não reclamo mais,
não questiono mais,
também não oro mais.

Eu não respiro como antes,
nem água pelos globos lacrimais
eu produzo pelos meus canais
e isso, é uma das mágicas que a dor faz.
Pense, e logo não seja você mesma
nunca mais.

Quando você sente suas veias incharem
e as pernas cansadas, você ainda anda.
E quando sente sua pele efervescer
e os dedos pontiagudos como os de uma faca
ainda sim, você anda.

A medicina não nos salva disso,
de sangrar por arrastar consigo
palavras que não pode falar,
momentos dos quais estará inerte
e não poderá vivenciar.
Lutas das quais não há chances de ganhar.

Parto de mim para falar, mas é assim que
ninguém nos salva de sangrar até ter uma hemorragia
e não dar tempo para estancar.
Cultuamos nosso sangramento e
cirurgiamos às próprias feridas.

Neste breu vermelho, ainda há estrelas a protestar,
mãos a se erguer
e mulheres para salvar.


HELLEN LIRTÊZ é uma jornalista acreana socioambiental , atuante na SOS Amazônia. Se descobriu escritora aos 8 anos de idade e desde então, não parou de se dedicar a isso. Também é artista visual, pinta quadros sobre representações do feminino. Integrou a academia de letras juvenil (AJAL) no patrono Mário Quintana de 2017 a 2023. É autora do livro Poesia Oceana (2022) e co-autora em antologias como: reminiscências (2021), Revista Ser mulherart (2020), Não me Kahlo (2023). É vencedora do prêmio mude o mundo como uma menina na categoria criativa (2020) e vencedora do terceiro lugar do Slam Etapa Norte (2018).

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